segunda-feira, 28 de julho de 2014

"Devo educar meus filhos para serem éticos?"


Desta vez faço minhas as palavras de Gustavo Ioschpe.  O texto abaixo veio ao encontro de tudo em que acredito.  Cada vez menos me conformo em viver em uma sociedade que mente descaradamente e utiliza a “Lei de Gerson” em seu dia-a-dia, sem se importar verdadeiramente com o próximo, a não ser que seja para levar sua própria vantagem.  Giselle Fernandes.

Com a palavra, Gustavo Ioschpe:

Educação
Gustavo Ioschpe

HANNAH ARENDT -  “Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”      (Getty Images)
Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.
Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.
Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.
Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.
Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.
Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.
Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...
Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá. 

Veja Educação. 14/09/2013.

Ioschpe participa de algumas das mais importantes organizações não-governamentais brasileiras ligadas à área da educação. É membro fundador do Compromisso Todos pela Educação e membro dos Conselhos do Instituto Ayrton Senna3 , Instituto Ecofuturo (Grupo Suzano), Fundação Iochpe e Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura. Como palestrante, atua no Brasil e no exterior, já tendo proferido palestras em outros países da América Latina e na sede da Unesco, em Paris. 

domingo, 27 de julho de 2014

Experiência da emoção


Primeiro dia de aula: eu, a professora, suando bicas na sala apertada da escola. Não podia me esquecer que tinha me preparado muito para aquele dia. Giz na mão, apagador de prontidão, tento desenhar alguns “rabiscos” na lousa para exemplificar a lição que deveria ser estudada naquele bimestre. Sentia uma excitação naquele momento ,mas, será que os alunos iriam gostar da aula?? Será que iriam se identificar , e pensando mais além, ficariam felizes por estar ali??
Tento não me deixar levar pelas emoções e começo a desenhar... Lembrando das cores que o homem primitivo usava para desenhar na parede das cavernas: vermelho, amarelo... Em vez do preto uso o branco. O desenho acontece tranquilamente, prontamente indicado na superfície lisa da lousa. Os alunos começam a se agitar e, então, descubro que eles não têm lápis. Ainda suando muito, corro na secretaria da escola e consigo uma caixa cheia de lápis, todos muito usados. Coloco em cima da mesa e me volto à lousa para continuar “ meus desenhos rupestres”. De repente, outro burburinho - um garoto me conta que os lápis estão sem pontas. Peço, agora um pouco nervosa, que peguem a caixa e apontem seus lápis - escuto então a caixa cair ao chão e os lápis se esparramando pela sala; não ligo, acredito que os alunos estão tentando me provocar, pois, perceberam que eu estava nervosa. Apago novamente os desenhos, peço que os alunos copiem e começo tudo do “zero” - os alunos reclamam. Por alguns instantes, deixo-me levar por aqueles símbolos oníricos e tento entender porque os antigos os desenhavam... Provavelmente queriam dizer algo: - Será que queriam expressar suas emoções?? Não, não foi isso que aprendemos na universidade. Ufa! Não consigo mais enxergar a sala, estou vidrada nos desenhos, porém, fico feliz quando olho e vejo uma garota desenhando em seu caderno. Enquanto isso, continuo a colorir os contornos na lousa, afinal, assim eram as pinturas rupestres. Depois de alguns minutos, percebo que a classe não olha mais para mim... desvio meu olhar como que numa tentativa de retomada orgulhosa e resolvo virar para trás. Fico perplexa! Todas as paredes da sala estão desenhadas e rabiscadas, símbolos estranhos, tais como garatujas, marcas e mapas.Rabiscos de todos os tamanhos. Olho para o chão e vejo vários lápis espalhados, um “canetão” e um batom _ os contornos muito fixos, marcados contra a textura da parede. Ainda perplexa com o ocorrido, escuto a voz do garoto dizendo: - Professora, agora entendi o que significa a Arte Rupestre!!!! Emoção da experiência ...

Texto de uma amiga/Educadora dedicada, comprometida e apaixonada pela arte de ensinar/aprender.

domingo, 20 de abril de 2014

Você é um professor eficaz ou eficiente?


            Está aí uma resposta difícil e por isso convido o leitor a pensar comigo e tirar suas próprias conclusões.  Vamos começar nossa reflexão com a definição de ambos os termos:  Eficaz / Eficiente.
            Segundo Paulo Krieser, mestrando em Administração de Empresas pela USP e Graduado em Ciência da Computação pela UFRGS:  “Para fins de analogia e exemplificação, podemos dizer que a eficiência é cavar, com perfeição técnica, um poço artesiano; eficácia é encontrar a água.”
            Transferindo a definição para o nosso tema, sobre o professor em si, inicio pensando no professor “certinho” e naquele que de fato funciona, ensina, desenvolve, marca a vida do aluno.  Entretanto, não se engane!  Um não exclui o outro, evidentemente!  Tem sido em torno de 30 anos de experiência em contato com a educação de crianças e jovens e, nessa caminhada, tenho encontrado ambos: os professores eficientes e os eficazes sendo que, infelizmente muitos ineficientes e ineficazes. 
            O professor eficiente é o que segue todas as regras da escola, o programa a ele conferido, faz a chamada, revisa conteúdos, elabora boas atividades, enfim, cumpre de forma eficiente todas as suas atribuições. 
            O professor eficaz é o que consegue resultados efetivos!  É o que se importa com a aprendizagem e bem estar de seus alunos.  Seguem alguns exemplos para facilitar o entendimento:
            Professor eficiente:  recebe um programa, lê, planeja a aula.  Segue rigorosamente os passos de sua aula.  Planeja e aplica avaliações, cumpre com prazos.  Usa o mesmo planejamento e técnicas para todas as turmas.  Canta músicas, lê histórias, realiza experimentos ou o que for relativo à idade e programa de sua turma.  Mantém sua sala em ordem, atende às expectativas da Direção Pedagógica.  Deixa a escola e recomeça o ciclo.  O professor eficiente transmite conhecimento e seus alunos aprendem (ou não). 
            Professor eficaz:  recebe o mesmo programa, estuda, analisa, imagina sua sala de aula, preocupa-se em como fazer, que estratégias usar para envolver seus alunos com aquele conteúdo.  Preocupa-se com os alunos que prontamente atendem às expectativas e, principalmente, com os que certamente terão dificuldades.  Ele tem o “passo a passo” de sua rotina escolar, mas ao planejar adéqua esses passos ao tempo de concentração da classe, à realidade diferente de cada turma.  Auto avalia-se a todo instante, bem como a seus alunos.  Checa se as estratégias estão de acordo, se o programa em si aplica-se para cada realidade, se os alunos respondem ao novo aprendizado.  Mantém registros de sua própria observação.  Olha para os alunos como seres individuais, percebe reações de cada um de do grupo.  Sua sala de aula é mantida de forma apropriada para a aprendizagem, tanto em relação ao apelo visual quanto aos materiais a serem manipulados e utilizados para enriquecimento da turma.  Diverte-se ao ler histórias, cantar músicas, sempre dá um brilho a mais para os olhos curiosos de seus alunos em experimentos, envolve a todos com o prazer pela conquista do aprendizado.  Também cumpre prazos, vai além das expectativas da Direção Pedagógica.  Deixa a escola revivendo cada minuto, avalia-se novamente, programa-se para o próximo dia, estuda a matéria, prepara-se, preocupa-se e elabora estratégias para certificar-se de estar atingindo a todos os seus alunos.  Acima de tudo, o professor eficaz provoca a curiosidade dos alunos!  O professor eficaz acompanha resultados aula a aula.  Participa da construção, observa o desenvolvimento, o funcionamento da construção do conhecimento!
            Resumindo, “eficiência não comprova eficácia” (Jim Leary).  Ou seja, o professor eficiente dá a aula, não necessariamente atinge os objetivos a ele conferidos.  O professor eficaz é o que atinge objetivos ou, ao menos, faz tudo o que estiver ao seu alcance para atingi-los.  Muda estratégias, pesquisa, vai além de seu próprio conhecimento, não se conforma com a horrível frase popular “eu finjo que ensino e eles fingem que aprendem”.  Em suma, “Eficácia é comprovada pelo alcance do aluno em sua aprendizagem e não pela eficiência do professor” (Jim Leary).
            Qual é a diferença entre eles?  Um é eficiente e o outro é eficaz.  Um é professor e o outro é educador, respectivamente.  Conforme Rubem Alves,  a diferença entre professor e educador é definida entre um e outro em seu livro “Conversa com quem gosta de ensinar”. Neste livro Rubem Alves enfatiza: “professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança.” Professor, segundo o autor, são como eucaliptos plantados por um motivo, enfileirado, descartável e com uma finalidade meramente comercial, econômica, trata-se de um funcionário de uma instituição submetido ao ritmo do sistema e ao tempo das máquinas. Educador por outro lado são como jequitibás, belos e raros; definidos pela suas paixões, sonhos e esperanças. O mundo mudou: jequitibás foram ao chão e em seu lugar foram plantados eucaliptos. Educadores deixaram de existir, em seu lugar professores. 
            Não quero concordar com Rubem Alvez quando diz que Educadores deixaram de existir.  Quero e preciso, como Educadora, acreditar que os Educadores estão todos aí, esperando pelo grande momento em que irão despertar seus alunos para a imensa responsabilidade e alegria de compartilhar, provocar, assistir a construção da sociedade!  Nota importante:  muitas vezes esse momento da transformação de professor eficiente para eficaz depende de uma Coordenação ou Direção Pedagógica eficaz!


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Mundo perfeito para os filhos

                Antigamente dizia-se “criar o filho em bola de cristal” como uma referência à super proteção.  Passados os anos, vejo que a bola de cristal vem hoje com um mundo perfeito dentro dela.  Ou seja, não só temos crianças super protegidas como, pior do que isso, criadas dentro de um mundo perfeito – e, obviamente, irreal!
                
Quero aqui falar um pouco sobre isso e levar o leitor a refletir e se questionar sobre o tipo de educação e preparo para o mundo adulto que vem sendo proporcionado à criança.  Nossa responsabilidade é muito grande ao nos disponibilizarmos a ter um filho e a criá-lo para esse mundo adulto.  Os filhos são aquilo que fizermos deles!
                
A super proteção acontece em todas as áreas e às vezes é mascarada com o “cuidar bem”.  Vem junto ainda com o mundo perfeito que elaboramos em nossas mentes, já que a visão de mundo “perfeito” é diferente para cada um e todos nós sabemos que perfeição não existe.
               
Na escola, temos visto cada vez com mais freqüência pais que praticamente exigem que os amiguinhos tenham exatamente o mesmo comportamento e educação que seus filhos.  Excluem, acusam, literalmente brigam por isso.  Se tiver uma criança com necessidades especiais na classe então, é um “Deus nos acuda”, porque têm medo que o filho comece a imitar o comportamento do outro, que conviva com o diferente, como se isso fosse uma doença contagiosa. 
                
Os pais idealizam, de acordo com sua visão, um mundo perfeito onde não há disputas, ciúmes, maneiras diferentes de comportamento, etc.  Não sabem que com isso estão criando filhos fracos, inseguros, indecisos e solitários – uma vez que ninguém será, jamais, “perfeito” como eles.  Entretanto, não estamos aqui para julgarmos pais que, na verdade, erram sem saber e confundem o cuidar com o superproteger. 

Ninguém erra porque quer.  Erra sim quem conhece e não toma atitude!  Vamos então começar do começo:  Yves de La Taille, educador e psicólogo francês naturalizado brasileiro, especializado em desenvolvimento moral e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), diz que nenhum ser humano nasce autônomo (independente).  Segundo ele, todos precisamos ser, primeiramente, heterônomos para então alcançarmos a autonomia. 

Em outras palavras, a criança, ao nascer, não tem a menor ideia de como o mundo funciona.  Ela não sabe que deve tomar banho, ou que existe um lugar na casa onde se guarda os brinquedos, que falamos bom dia ao acordar, enfim, ela nasce sem nenhuma regra, sem nenhum princípio ou regra moral ou social.  Isso é tarefa dos adultos!  São eles que estão incumbidos de contarem para as crianças como o mundo funciona.  E isso exige determinação.  Os adultos em questão são primeiramente os pais e depois os professores – e não a ordem inversa!  

Ivan Capelato, Psicoterapeuta de crianças, adolescentes e famílias; Mestre em Psicologia Clínica pela PUCCAMP, diz que “limite é o desejo de quem cuida”, de quem se importa, de quem se sente responsável pela educação da criança.  Para isso, a criança terá que passar, necessariamente, pela frustração – de desejos e vontades.  Ivan diz ainda que frustração não é sofrimento.  É crescimento!  Como ex., ele fala de uma criança que está desenhando e a ponta do lápis quebra e ela fica brava, chora muito – obviamente, frustrada.  Vamos pensar em duas situações:  na primeira, o adulto aponta o lápis e devolve à criança.  Na segunda, simplesmente a distrai e lhe dá outro brinquedo.  Se o adulto mostrar a ela que apontando o lápis ela pode voltar a desenhar, está, na verdade, mostrando como contornar uma situação de frustração.  No segundo exemplo, esse adulto perdeu um momento valioso de educação.  Não ensinou como lidar com situações difíceis do dia-a-dia.  Ilustrando a primeira situação:  diante de qualquer incômodo, os pais simplesmente trocam de escola, de curso de natação, viram sua própria vida de ponta cabeça para satisfazer “uma simples ponta de lápis quebrada”...

“Temos, hoje em dia, jovens extremamente inteligentes mas sem nenhum auto-controle emocional” diz Ivan Capelato.  Verdadeiros gênios que, se a namorada romper com ele, a primeira coisa que vem à cabeça é suicídio, justamente por não terem nenhuma estrutura emocional bem construída.

Enquanto países desenvolvidos lidam com a inclusão de maneira respeitosa e natural (inclusão, não só de portadores de necessidades especiais, mas também inclusão de alunos em situações sócio-econômicas diferentes), vemos pais e escolas, no Brasil, selecionando cada vez mais, tentando construir grupos sociais homogêneos e irreais.  Estamos ensinando desse modo, às nossas crianças, a intolerância, a seleção, o egoísmo e a desumanidade.  Com a super proteção dentro de um mundo perfeito, criamos crianças e jovens fracos, sem determinação, sem atitude e sem nenhum preparo emocional para o mundo real.

Vamos pois, mimar menos e educar mais!  Que nossas crianças comecem a ser criadas do lado de fora da bola de cristal e do mundo perfeito, com uma visão ampla do mundo real.  Vamos lidar com as nossas próprias frustrações e passar a encará-las como oportunidades de crescimento – inclusive para nós mesmos!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O maestro



                A escola, assim como a orquestra, precisa do maestro.  Os músicos dependem dele, a platéia espera o resultado positivo e agradável do seu trabalho.  Sendo assim, como deveria o maestro da escola se preparar para a regência de sua orquestra?  E os músicos?  A platéia, de modo que possa apreciar a performance?   Há que se ter disciplina e determinação para estudar, graduar, estudar  mais e mais e praticar.  Não basta obter uma graduação para garantir uma performance de qualidade. 
                Na escola, o maestro é o Diretor e/ou Coordenador Pedagógico.  Os músicos são os professores, assistentes e todos que formam a equipe.  A música são os alunos.  A platéia são os pais.  Para que a música seja de qualidade, os músicos precisam estar em perfeita harmonia, regidos pelo maestro preparado para a função.  Desse modo, a platéia terá o maior prazer em apreciar o resultado.
                Analogias à parte detenho-me agora na questão da relação e responsabilidades do Diretor da escola.  A formação é a Pedagogia.  É o básico necessário – por lei e por fundamentação e preparo teórico básico.  Sim, básico, porque a formação não garante a eficácia.  Esta vem com a experiência, prática de sala de aula, estudos por meio de especializações que vêm com a pós-graduação, empenho, dedicação, firmeza no estabelecimento e cumprimento de objetivos – específicos e gerais.
                Cabe ao Diretor estar presente em todos os momentos da escola, seja na observação de aulas e de alunos tanto durante as aulas quanto nos horários de intervalo e passeios.  É o Diretor quem observa, avalia, orienta e checa o trabalho do professor, desde o planejamento de atividades até a execução em sala de aula e sistemas de avaliação – cognitiva, social, emocional.  É ele quem detecta possíveis problemas entre alunos e age.  É o Diretor experiente que trabalha na prevenção de problemas.  É o Diretor quem garante a sintonia do trabalho entre professor e assistente de classe.  É ele quem garante que todos os momentos da escola sejam assistidos. 
                O Diretor da escola é aquele que tem muito claro o objetivo geral final.  Ele tem a visão do todo e, por isso, trabalha no sentido de não se desviar de sua meta.  Ele sabe qual é o caminho a ser trilhado e não se desvia dele.  Evidentemente, durante o percurso, muitas vezes ele terá que tomar certas decisões momentâneas, mas sem jamais perder de vista o “ponto final”.   Se algo não vai bem, ele detecta e age!
                Não acredito no Diretor que dirige a escola de sua sala.  Também não acredito no Diretor que acumula outras funções.  Foco é o segredo!  Acredito e admiro o Diretor que vai à sala de aula, que se reúne constantemente com sua equipe, que planeja junto, que se faz presente junto a todos os envolvidos.  Admiro o Diretor que mantém a escola em uma constante, sem altos e baixos, firme e forte – sempre!   É o Diretor da escola que mantém os pais atualizados e muito bem informados sobre a vida escolar de seus filhos.  As habilidades fundamentais, portanto, são disciplina, organização, firmeza e liderança.  A simples graduação não significa nada se não colocarmos essas habilidades no pacote.
                Trabalho solitário, o do Diretor da escola.  Apesar da analogia com o maestro, o diretor trabalha praticamente no camarim, não sendo, na maioria das vezes, reconhecido.  Os créditos frequentemente são atribuídos ao resultado final e não ao trabalho de fundo, de sustentação, de base do Diretor.  Entretanto, se algo der errado, ele é prontamente lembrado...
                Reconhecimento?  É a satisfação própria da consciência de ter feito um bom trabalho.  É saber somente para si mesmo que trabalhou firme, incansavelmente, no cumprimento de seus objetivos.   Para o Diretor equilibrado, maduro e consciente, o que realmente importa é a música final, na apresentação.  Ou seja, é ter o prazer inigualável de ter garantido uma educação de qualidade aos seus pupilos, é a satisfação por ter contribuído com o desenvolvimento social, emocional e cognitivo dos alunos sob sua batuta!  É também o prazer de presenciar a satisfação da platéia!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O coração da escola



Coordenador Pedagógico, aqui chamado de “o coração da escola”.  Muitos irão pensar que estou “puxando brasa para a minha sardinha” e, de fato, estou mesmo, mas espero poder discorrer sobre o assunto de forma a fazer com que o leitor compreenda a expressão que pode ser tomada como um tanto arrogante.
Um pouco da minha história, para situar o leitor e organizar o pensamento:  estou na profissão há 30 anos.  Sou graduada em Pedagogia e, na época, a especialização do curso era Orientação Educacional ou Administração Escolar.  Optei por Orientação Educacional, apesar de, anos mais tarde, ter feito também Administração, assim como pós-graduação em Psicopedagogia e em Didática do Ensino Superior.  Pois bem, tenho para mim muito claras cada uma das diferentes funções:  orientação educacional e administração escolar.  Aí entra o Coordenador Pedagógico, uma função pouco clara, tanto para os donos das escolas e governo quanto para os pais e até mesmo para os próprios profissionais. 
O Coordenador Pedagógico é aquele que dá o tom à escola; ou seja, acompanha, orienta, interfere, avalia o trabalho docente através de participação efetiva diária na escola, seja através de reuniões individuais com os professores, ou por disciplina, série, projetos interdisciplinares, etc.  É também aquele que acompanha o desenvolvimento dos alunos através de observação presencial nas aulas, resultados estatísticos de rendimento, observações de casos individuais que necessitem de atenção redobrada, além da observação dos alunos enquanto grupo de trabalho e/ou de diversão – a hora do intervalo é excelente para observação e análise!
É o Coordenador Pedagógico que tem a visão do todo e, assim, orienta a equipe nesta ou naquela direção, ou se é o momento de mudar o rumo.  É ele quem atende aos pais e está apto a sanar dúvidas, a estabelecer parcerias com as famílias, inclusive orientando quanto ao relacionamento adequado que solidifique a parceria família/escola.
Além disso, é o Coordenador que administra eventos da escola – é ele quem decide, em conjunto com o grupo de professores quais são os eventos de relevância pedagógica, quais deverão ser internos e quais deverão ser abertos às famílias, como e quando serão as festividades, quem serão os responsáveis, etc. 
Administra também os conflitos – tanto entre alunos como entre professores!  Ele, o Coordenador, é o responsável pela imagem da escola e pelo bom andamento da mesma.  É ele quem se coloca aberto e à disposição dos pais, quem garante que as informações cheguem às famílias a contento.  É ele ainda que planeja e providencia cursos de extensão e aperfeiçoamento para a equipe docente.  Incorporando as funções do Orientador Educacional, é o Coordenador quem observa alunos com diferenças de comportamento e/ou possíveis distúrbios de aprendizagem avaliando a necessidade de orientar o professor a lidar com a situação e, caso seja necessário, de chamar a família para que também seja notificada, orientada e, em havendo necessidade, encaminhar para profissionais especializados.  Escola não é consultório.  A função é de orientar e encaminhar, se for o caso.  A escola não pode se omitir, mas deve estar também atenta para não ultrapassar seus próprios limites. 
Para tudo isso e muito mais, não basta ser simplesmente graduado em Pedagogia.  É necessário ter experiência de sala de aula e cursos de aperfeiçoamento específicos para a função.  O Coordenador Pedagógico precisa saber para poder orientar/coordenar.  Precisa saber planejar a curto e a longo prazo, precisa de conhecimento profundo em técnicas metodológicas e de avaliação, assim como estratégias práticas de ensino, liderança e coordenação de grupo – seja grupo de alunos, pais, ou professores – e, finalmente, embasamento teórico que suporte todas as suas ações.
O Coordenador Pedagógico não é (ou não deveria ser) simultaneamente “Diretor da Escola” ou Psicólogo Educacional.  E é isso exatamente que ocorre na imensa maioria das escolas:  acúmulo de funções – e nenhuma delas acaba sendo desenvolvida exatamente como deveria.  O Coordenador Pedagógico não é simplesmente um professor que demonstra certa liderança e que de repente assume uma escola inteira!
Na verdade, já adaptei um pouco as funções acima descritas, quando inseri algumas funções do Orientador Educacional às funções de Coordenador Pedagógico.  Já basta, é suficiente para um trabalho bem feito.
O Coordenador Pedagógico não é o Administrador da escola, não é o Diretor.  E nem o Secretário.  Não é ele quem se preocupa com as questões financeiras ou reuniões burocráticas com Departamentos de Ensino.  Ele trabalha atrás do palco!  Ele é o coração da escola e, para tanto, precisa se concentrar, focar em suas atribuições e SER RECONHECIDO, VALORIZADO – inclusive financeiramente.  É a figura da qual uma escola inteira depende e que, sem ele, sem o “coração”, a escola passa a funcionar mecanicamente, como se fosse respiração artificial.

Para saber mais:

domingo, 30 de setembro de 2012

Problemas de aprendizagem – soluções mágicas?



Não, infelizmente não existe mágica ou pílula milagrosa para se resolver problemas de aprendizagem e/ou comportamento.  Também, como já ouvi muitas vezes, os filhos não nascem com manual de instrução.  Qual é o caminho, então, para todos que desejam acertar, amar muito os filhos, fazê-los felizes, etc?
          Estas e outras são questões muito complexas, mas que podemos tentar abordar neste espaço, ao menos para estimular a curiosidade e o pensamento, fazendo com que possamos nos estender posteriormente.
          Antes de mais nada:  pais e mães jamais irão acertar 100%.  Não são perfeitos, ninguém o é.  São sim, cheios de amor para dar e com as melhores intenções.  Portanto, vamos trabalhar com isso, já sabendo que ninguém é perfeito, que dúvidas, erros e acertos fazem parte também do crescimento adulto.  O mais importante é a consciência de que temos muito a aprender, de que precisamos ser humildes e buscar ajuda e conhecimento – neste caso, para a educação e desenvolvimento dos filhos.  Existem fontes riquíssimas à nossa volta; basta procurar e selecionar as de qualidade, evidentemente.  Especialistas à disposição, livros, artigos, websites, vídeos, enfim, basta querer se aprofundar.  Na verdade, conforme o leitor poderá acompanhar comigo neste texto, a busca pelo conhecimento adequado é a única saída, já que realmente não existem soluções milagrosas.
          São 30 anos de profissão em contato com pais de alunos e o que observo, no geral, é que existe uma expectativa dos pais em relação aos filhos, de que estes se enquadrem aos padrões existentes.  Qualquer diferença, por menor que seja, assusta.  E assusta porque é sem dúvida muito mais fácil ser “normal”, no sentido de estar dentro da linha da normalidade da maioria.  Existem, evidentemente, padrões que servem para que tenhamos um ponto de partida.  De partida, mas não de chegada!  Seu filho é diferente?  Diferente como, quanto, como?  Muitas vezes é uma vantagem ser diferente! 
          Colocando em termos mais práticos e bastante frequentes:  pensando em uma criança de 06 anos, matriculada no 1º ano do Ensino Fundamental > uma simples dificuldade de concentração na atividade de casa, por exemplo, pode ser encarada pelos pais através de vários diferentes pontos de vista:
1)    A criança tem muitas atividades durante a semana toda, fora do horário escolar, e está exausta!  Ou imatura, despreparada. 
2)   Ele está infeliz na escola, o sistema é excessivamente rígido, não oferece oportunidade de descontração e não estimula o prazer dos alunos em aprender.  Os outros alunos podem ser mais fáceis na adaptação e submissão, mas seu filho está dando um alerta:  essa escola não me estimula!  (ele é simplesmente mais esperto!)
3)   Os pais não participam ou se interessam pela vida escolar dele.  A criança não tem estímulo em casa, pais ausentes, nada desperta prazer na criança, muito menos sua atenção, interesse ou concentração.  Ela “foge” para o DVD e vídeo game, em seu mundinho virtual e particular.  A única forma de chamar a atenção para si é dando problema na escola e assim, atraindo a atenção dos pais.
4)   A criança tem problemas de audição e/ou visão.
5)   Eliminando todas as hipóteses acima, a criança de fato apresenta dificuldades de aprendizagem e/ou atenção.
Pois bem, seja qual for o problema, recorre-se a um especialista que, sendo sério e eficiente, irá primeiramente pensar em todas as possibilidades antes de simplesmente diagnosticar a criança como portadora de distúrbios de aprendizagem.  A questão é que sendo ou não um distúrbio, a família é convidada (intimada) a participar do tratamento.  É aí que entra a frustração e desespero da maioria dos pais.  E por quê?  Simplesmente porque assumem esse convite como uma crítica, como se o especialista estivesse apontando o dedo e lhes mostrando que não são perfeitos, que precisam mudar a rotina, as atitudes, enfim, há muito trabalho para se fazer e isso incomoda!  Incomoda porque quando nos tornamos pais, desejamos a perfeição!  Queremos estar 100% certos em tudo que fazemos para e pelos nossos filhos.  Ou seja, não aceitamos críticas, mesmo as construtivas. 
Os pais, na maioria das vezes, acham que com o fato de irem ao especialista, o problema irá se resolver magicamente.  Não irá!  É fundamental a parceria!  Mesmo que tenha sido diagnosticado um distúrbio, via neuro psicólogo, os pais terão muito o que fazer em casa, para concluir o tratamento.  Em caso de não ser distúrbio, também. 
De todo modo, a família precisa entender que ela é o primeiro e mais importante referencial da criança.  É lá que o problema aparece e se resolve!  Sem melindres, sem culpas!  Nós, profissionais, precisamos tanto dessa parceria quanto da ajuda de um medicamento ou dos exames.
Voltando ao caso ilustrado acima, os pais são convidados a se aproximar da criança e, por exemplo, passarem a brincar com seus filhos, utilizando brinquedos e brincadeiras que tenham como princípio a concentração, a estratégia, a diversão!  Muito diálogo, muita leitura, música, diversão!  Sim, insisto na diversão!  É tratamento, mudança de atitude, parceria com o próprio filho, mas antes de mais nada é diversão em conjunto! 
O brinquedo não precisa necessariamente ser “pedagógico”, já que todo e qualquer brinquedo, por si só, já é pedagógico – afinal, a criança aprende brincando, experimentando, observando, se divertindo!  Seu filho gosta de carrinhos?  Sente no chão e brinque!  Desenhe uma pista no chão, construa prédios e postos de gasolina com os blocos lógicos...  Ele está enjoado dos livrinhos infantis?  Que tal incorporarem personagens improvisando fantasias, criando novas histórias a partir de uma do livrinho?  Tenha um espaço como um tanque de areia em casa, com muitos recipientes de todos os tamanhos.  Estimule-o a moldar com areia, faça massinha em casa, com farinha e água!  Mas, atenção:  o mais importante de tudo isso é o diálogo, a conversa informal durante a brincadeira.  É assim que ele irá constituir seu próprio vocabulário e organização de idéias.  Converse muito com seu filho!
À mesa, na hora das refeições, ao invés de mandá-lo ficar quieto, direcione a conversa não somente sobre acontecimentos do dia a dia, mas também sobre a comida:  de onde vem a batata, como é plantada, quantas cores diferentes ele está vendo na comida, brinque de soletrar, enfim, libere sua imaginação e participe da vida do seu filho.  Esses e muitos outros exercícios podem e devem ser feitos, independente de “tratamento”.  Lição escrita, formalidade para aprender?  Deixe isso com a escola! 
Os pais não têm ideia do quanto podem ajudar em um tratamento com essa mudança de atitude.  Novamente, insisto:  não existe pílula milagrosa.  Há que se ter paciência e persistência!  As crianças agradecem!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Comercialização da infância



Hoje, para ser mãe/pai é preciso literalmente reunir muitas posses – será mesmo?  Gostaria que o leitor pensasse comigo “porque isso está acontecendo”.  Não tenho respostas prontas, apenas observações que divido neste artigo, que recomendo também para professores e orientadores educacionais.

É certo que a criança precise dos mais variados estímulos para enriquecer e formar seu próprio universo.  Mas precisa também de experiência e criatividade!  Digo isso por reparar que me parece que os pais ficam enlouquecidos se não puderem proporcionar às crianças divertimento e entretenimento 24 horas por dia.  Não precisam!  A criança é que tem que buscar por si mesma, desde bebê.  Aos adultos cabe mostrar, exemplificar, participar e... se retirar no momento exato em que estaria começando a interferir.

Vivo em um país onde se consome muitos produtos (especialmente alimentos) industrializados, mas nem de longe se compara ao Brasil quanto ao entretenimento e diversão “comprada” das crianças.  Assim, sendo educadora, é praticamente impossível não reparar e comparar.

Criança tem que brincar na terra – não só na areia preparada – andar de bicicleta, correr atrás de borboletas, observar passarinhos, fazer comidinha com grama e galhinhos, numa panelinha de folhas de árvore, etc.  Brincar de esconde-esconde, pega-pega, bolinha de gude.  Inventar jogos e brincadeiras, regras “malucas” para seus próprios jogos.  Pular corda, correr!  Andar descalço, sentir o vento e até ser picado por formiga – tudo faz parte do mundo em que habita.  Sem medos, precauções, excesso de proteção.  


Outro dia uma menininha de 05 anos levantou um assunto que durou muito e todos (nós, adultos e ela) nos envolvemos:  “se fôssemos bem altos e conseguíssemos chegar até as nuvens, poderíamos andar nelas?” – ela só foi capaz de fazer essa pergunta por ter estado quietinha, observando, imaginando, em contato com a natureza.  Dentro de casa não se observa nuvens!  


Criança tem que se sentir um pouco sozinha para ter o estímulo de vencer a vergonha e ir procurar amigos – por si só.  Estou falando aqui de participar de suas próprias experiências, observar, socializar, construir conhecimento.  Brinquedos que brincam sozinhos ou parques temáticos são interessantes, fazem parte, mas devem ser vistos como acessórios, assim como os jogos eletrônicos.  Os maiorzinhos podem e devem construir seus próprios brinquedos – a diversão está na construção, muito mais do que na brincadeira em si!  


Também é uma gostosa brincadeira participar do que se refere ao bem-estar na casa.  Ajudar a arrumar a casa, guardar e ser responsável por seus brinquedos (e bagunça que inevitavelmente fica quando se acaba a brincadeira), ajudar a preparar seu próprio lanche, observar a transformação dos alimentos, saber de onde vêm, cultivar uma horta, mesmo que seja em um vasinho de plantas e ser responsável por regar, curtindo seu desenvolvimento.    Toda criança adora ajudar a varrer o quintal, por exemplo, ou espremer a laranja do seu próprio suco.  Tudo isso, com muita conversa, se torna de um aprendizado sem igual.  Se o adulto se der o direito de investigar o conhecimento prévio da criança, ouvir suas dúvidas e conclusões, direcionar e desenvolver o poder natural de observação da criança, isso é insubstituível.  Por exemplo, “depois de varrer o quintal, recolhermos com a pazinha e jogarmos o lixo na lata, para onde vai essa sujeira?”   É infinito o universo e a riqueza da relação adulto/criança. No caso da casa, quando o adulto permite que a criança participe, está passando a mensagem de que todos que nela vivem podem e devem colaborar para o bem estar.  É assim (ou deveria ser) na comunidade, seja ela escola, clube, casa – própria ou de amigos, etc. 


Em passeios, em casa, no carro, toda hora é hora, todo lugar é o lugar propício.  Não precisa ser unicamente em parques riquíssimos ou playgrounds com monitores – que geralmente não deixam a criança brincar no sentido literal.  Está tudo organizado, pronto, com começo, meio e fim previamente determinados.  


A mídia faz muito bem o seu trabalho e os menos avisados se envolvem e de fato chegam a se sentir culpados caso não tenham condições de proporcionar tudo que a TV, outdoors, revistas “vendem”.  Esqueçam!  Eles fazem muito bem o seu trabalho e nos levam a pensar que uma criança que não vai ao Hopi-Hari ou Disney nas férias, é como se não tivesse tido férias, assim como se não tiver o último lançamento de vídeo game ou boneca que faz até xixi “de verdade”.


Estamos falando de respeito entre as pessoas, pela natureza, por si próprio, enfim, uma gama infinita de valores que não se aprende em livros, mas especialmente na vida, no contato com o mundo.  Pense nisso na hora de comprar o próximo brinquedo de seu filho.  Pergunte-se se o mesmo estimula a imaginação, propõe desafio, desenvolve a criatividade, proporciona experiência e socialização, diálogo com os pais...  Pense nisso ao planejar as próximas férias escolares!  Professor, pense nisso ao planejar suas aulas!


Excesso de protecionismo cria robozinhos que somente reagem se o botãozinho liga/desliga for acionado.  








quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sem medo de educar



         Esta semana vivi uma situação muito interessante, que ilustra a interferência de uma mãe canadense, apropriada e eficiente na educação de sua filha de cinco para seis anos.

         Ao encontrar a amiga que já conhecia a tempos, a “Mary”, de tão feliz, começou a correr dela sem parar e sequer a cumprimentou.  Ela ria e corria e a outra ia atrás dela.  Como era de se esperar, a outra, aqui chamada de “Susy”, ficou frustrada e sem entender o que estava acontecendo.  Como reação, passou a fugir da Mary e a se esconder.  A Mary veio contar para a mãe que a Susy não queria brincar com ela.  A mãe, muito calma, disse:  “Você feriu os sentimentos dela, Mary.  Teve uma atitude rude e agora ela está se escondendo porque está triste.  Veja o que pode fazer.”

         Mary aproximou-se da amiga, fez comentários sobre os brinquedos, mas a outra ainda se escondia e mostrava tristeza ou desconfiança no olhar.  Mary insistiu com os brinquedos e a outra entendeu que agora poderiam brincar normalmente.  E assim se resolveu o dilema e elas brincaram juntas, como de costume, por horas!

         A mãe da Susy estava lá, conversando com a mãe da Mary e não houve desculpas de mãe para mãe, ninguém tocou no assunto.  Houve apenas e tão somente a interferência da mãe que, na verdade, nem foi interferência.  Foi apenas a tradução do que havia acontecido para que Mary compreendesse. 

         O que normalmente vejo é mãe se desculpando com a outra mãe e agindo de duas maneiras diferentes:  ou protegem a criança – no caso, a Mary, que corria da amiga – e inclusive iria até a outra para que brincasse com sua filha ou, por outro lado, chamaria a atenção de Mary na frente da outra mãe e amiga, o que causaria um clima tenso, a menina ficaria envergonhada, etc.

         Do modo como essa mãe agiu, ela interpretou o ocorrido, mostrou a Mary que ela havia sido rude sem maiores explicações, pois as crianças entendem muito bem o que fazem.  Interpretou também a reação da outra e deixou claro que ela, Mary, é que deveria resolver.  Deu-lhe a compreensão e as ferramentas para “consertar” a situação.  O resultado não poderia ter sido outro:  linguagem de criança é simples, direta e objetiva.  Tudo resolvido, sem drama, sem culpas e com imenso aprendizado!

         Além da história que fala por si, quero enfatizar que precisamos perder o hábito do “sermão”, que na maioria das vezes é absolutamente desnecessário e cansativo, além de mudar ou se perder no foco daquilo que realmente é importante que seja tratado.  A mãe em questão falou baixo, tranquila, mas de forma direta e objetiva, sem medo de educar!  Assim devem agir os pais e educadores – sempre e em todas as oportunidades.     

         Fundamentando o acima exposto, acrescento parte do estudo de Jean Piaget, relacionado às fases do desenvolvimento humano:  “... Contudo, embora a criança consiga raciocinar de forma coerente, tanto os esquemas conceituais como as ações executadas mentalmente se referem, nesta fase, a objetos ou situações passíveis de serem manipuladas ou imaginadas de forma concreta. Além disso, conforme pontua La Taille (1992:17) se no período pré-operatório a criança ainda não havia adquirido a capacidade de reversibilidade, i.e., "a capacidade de pensar simultaneamente o estado inicial e o estado final de alguma transformação efetuada sobre os objetos (por exemplo, a ausência de conservação da quantidade quando se transvaza o conteúdo de um copo A para outro B, de diâmetro menor)", tal reversibilidade será construída ao longo dos estágios operatório concreto e formal... “  em trabalho publicado por Márcia Regina Terra, acessível em http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/d00005.htm

            A criança em questão está claramente passando do estágio pré-operatório para o estágio das operações concretas.  Para tanto, recebe constantemente o retorno, o espelho de um adulto que a faz pensar e construir suas próprias soluções morais.  Ela ainda não está autônoma e, por isso, necessita de ajuda (por ser heterônoma) para que faça suas próprias escolhas.  Note-se que a mãe não soluciona para ela; apenas age com naturalidade e a conduz ao comportamento apropriado.

         Existe uma falsa concepção com relação às interferências adequadas, o que resulta em medo de errar e de educar.  Conforme Yves de La Taille (em “Limites, três dimensões educacionais”), para que o ser humano alcance a autonomia precisa antes ter passado pela heteronomia – ou seja, pressupõe-se que os adultos contem às crianças quais são as regras do jogo, o que se espera delas nesse mundo do qual fazem parte.  Sem medo, sem drama e com confiança.